100 Degrees of Brazil

100 days project

DAY 71. Carlos Augusto de Miranda e Martins

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Master in Communication Sciences

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English: 

Carlos graduated in History at the University of São Paulo (USP), master in Communication Sciences from the same university, with an international post-graduation internship at the Center for Advanced Studies of the National University of Cordoba, Argentina. Carlos is also a member of the “Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro” (NEINB-USP) – Center for Interdisciplinary Studies of the Brazilian afro-descendant – and a member of the Editorial Board of the scientific journal “Multiplicidades”. He is the author of the research called “Racismo Anunciado: o negro e a publicidade no Brasil” (1985-2005) – Announced Racism: Black people in the Brazilian advertisement (1985-2005).

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What is your impression about a brand called Brazil?

Brazil is the country of the past

The title of this report is purposely an opposition to the classic phrase “Brazil is the country of the future”. Although many hopes are deposited in the future, we can realize that structures and cultural traits of the past are still present and strongly rooted in our current days.

I call this text of report because it was written without any concern with methods, quotes or references. It’s just a text, the first non-academic text I’m writing after years, so it may sound a bit confusing.

During my Master’s degree I had the opportunity to undertake an internship at the Center for Advanced Studies of the National University of Cordoba, in Argentina. In the three months I lived in that town, I kept close contact not only with Argentines (which would naturally be expected), but also with a large number of foreigners, mostly Mexican and French, who also developed exchange activities.

As a researcher of themes related to the formation of national identity and culture, I took advantage of that proximity to gather impressions on the perception that those foreign colleagues had of Brazil.

I say “to gather impressions” since I didn’t use any research methodology, nor was my goal to apply questionnaires or bring information to the research developed at the time. It would be more of a curiosity.

Typically, the subject arose naturally, in informal conversations during meals in the accommodations or in between classes. And of those conversations, I could realize that images of a vibrant and exotic Brazil appeared in a recurrent way (and almost unison).

There was much talk (sometimes in a joke tone, also) about the ‘Brazil, the world’s largest “(sic): Brazil has the world’s largest forest, the largest river in the world, the best beaches in the world, the biggest party in the world, the best women in the world, among many others “largest in the world”.

I could notice, also, that this curiosity and admiration were rarely accompanied by minimal knowledge about Brazil, generating surprises and disappointments.

In general, the Amazon rainforest is oversized, occupying more than half of the Brazilian territory. On the other hand, the urban areas and industrial/technological development were virtually ignored. The beaches, the carnival and the women were exalted. The rest did not matter.

Such ignorance was also applied to the population issue. Once, when I said that in Brazil 50% of the population was composed of black people and African descendants, everyone in the conversation looked at me surprised, affirming their beliefs that the Brazilian population would have 80% or 90% of black people.

This moment is emblematic and contrasts sharply with the way the Brazilians, or rather, with the way the representations about the country are forged by Brazilian elites. If for those foreigners Brazil was a country of a black majority, marked by diversity, for the Brazilian elites Brazil is a white country.

In advertising, in the soap operas, in the movies, in textbooks, to sum up, in all areas of symbolic representation the participation of black people (and Indigenous people) is decreased, disregarded, undervalued, so they do not reflect the reality of the population, nor the historical and cultural importance of these people in the conformation of Brazil we have today.

While the images that my foreign colleagues had in Brazil are similar to reports that navigators and travelers of the sixteenth and seventeenth centuries made of the Terra brasilis  (“Brazilian Land”), social representations forged by elites bring us back to the eighteenth and nineteenth centuries, when there was hope to see progress and a racial-ethnic conformation aligned to European standards.

So, I think that Brazil as a brand is a cultural product disconnected from reality, in other words, the “brand Brazil” is far from representing the streets of Brazil, the countryside of Brazil, the “real” Brazil or close to real. What we have is a representation of Brazil which reflects the way a minority of the population sees (or want to see) the country.

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Português:

Formado em História pela Universidade de São Paulo (USP). Mestre em Ciências da Comunicação também pela USP, com estágio internacional de pós-graduação no Centro de Estudos Avançados da Universidade Nacional de Córdoba, Argentina. Integrante do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre o Negro Brasileiro (NEINB-USP) e membro do Conselho Editorial da revista científica Multiplicidades. Autor da pesquisa Racismo Anunciado: o negro e a publicidade no Brasil (1985-2005).

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Qual é a sua impressão de uma marca chamada Brasil?

– O Brasil é o país do passado

O título deste relato é propositadamente uma oposição à clássica frase “o Brasil é o país do futuro”. Embora muitas esperanças sejam depositadas no porvir, podemos perceber que estruturas e traços culturais do passado ainda estão presentes e fortemente arraigadas em nosso presente.

Chamo este texto de relato, pois o mesmo foi escrito sem qualquer preocupação com métodos, citações ou referências. É apenas um texto, o primeiro não acadêmico que escrevo depois de anos, e por isso talvez soe um pouco confuso.

Durante meu curso de mestrado tive a oportunidade de realizar um estágio no Centro de Estudos Avançados da Universidade Nacional de Córdoba, Argentina. Nos três meses que vivi naquela cidade, mantive estreito contato não apenas com argentinos (o que seria natural de se esperar), mas também com grande número de estrangeiros, em sua maioria mexicanos e franceses, que igualmente desenvolviam atividades de intercâmbio.

Como pesquisador de temas ligados à formação da identidade e da cultura nacional, aproveitei-me dessa proximidade para colher impressões sobre a percepção que aqueles colegas estrangeiros tinham do Brasil.

Digo “colher impressões” uma vez que não me utilizei de qualquer metodologia de pesquisa, tampouco era meu objetivo aplicar questionários ou trazer informações para a pesquisa de desenvolvia à época. Seria mais uma curiosidade.

Normalmente, o assunto surgia de forma natural, em conversas informais durante as refeições no alojamento ou nos intervalos das aulas. E dessas conversas, pude perceber que apareciam de maneira recorrente (e quase uníssona) imagens de um Brasil pujante e exótico.

Falava-se muito (às vezes em tom de piada, inclusive) no “Brasil maior do mundo” (sic): o Brasil tem a maior floresta do mundo, o maior rio do mundo, as melhores praias do mundo, a maior festa do mundo, as melhores mulheres do mundo, entre outros tantos maiores do mundo.

Pude perceber, também, que essa curiosidade e essa admiração poucas vezes vinham acompanhadas de conhecimentos mínimos sobre o Brasil, o que gerou surpresas e decepções.

Em geral, a floresta amazônica é superdimensionada, ocupando mais da metade do território brasileiro. Em compensação, as áreas urbanas e o desenvolvimento industrial/tecnológico eram praticamente ignorados. Exaltavam-se as praias, o carnaval e as mulheres. O resto pouco importava.

Tal desconhecimento aplicava-se também à questão populacional. Certa vez, ao dizer que no Brasil, 50% da população era composta de negros e afro-descendentes, todos que participavam da conversa me olharam com surpresa, afirmando pensar que a população brasileira teria 80% ou 90% de negros.

Esse momento é emblemático e contrasta fortemente com a maneira como os brasileiros, ou melhor, como as elites brasileiras forjam representações sobre o país. Se para aqueles estrangeiros o Brasil seria um país de maioria negra, marcado pela diversidade, para as elites brasileiras o Brasil é um país branco.

Na publicidade, nas novelas, no cinema, nos livros didáticos, enfim, em todos os espaços de representação simbólica a participação do negro (e do indígena) é diminuída, detratada, menoscabada, de forma a não refletir a realidade populacional, tampouco a importância histórica e cultural desses povos na conformação do Brasil que temos hoje.

Enquanto as imagens que meus colegas estrangeiros tinham do Brasil assemelham-se aos relatos que navegadores e viajantes dos séculos XVI e XVII faziam da Terra brasilis, as representações sociais forjadas pelas elites nos remetem aos séculos XVIII e XIX, quando almejava-se um progresso e uma conformação étnico-racial alinhados aos padrões europeus.

Assim, penso que o Brasil enquanto marca é um produto cultural dissociado da realidade, ou seja, a marca “Brasil” está longe de representar o Brasil das ruas, o Brasil do campo, o Brasil “real” ou próximo do real. O que temos é uma representação do Brasil que reflete a forma como uma parcela minoritária da população vê (ou deseja ver) o país.

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This entry was posted on June 23, 2013 by in Brazilians and tagged , , , , , , , .

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